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| Foto: Divulgação |
Essa
reportagem talvez é uma das que mais me marcaram no meu início de carreira
jornalística. Conversar sobre desaparecimento de familiares não foi uma tarefa
fácil, pois a emoção toma conta, por observar a angústia estampada das fontes
que entrevistei. Essa matéria eu produzi em 2014, e em uma pesquisa rápida eu
observei que ambas continuam desaparecidas ou não existem relatos sobre os seus
paradeiros.
Esperança
do reencontro continua viva
Em
um sábado de novembro de 2012, Ilse Bonemann levanta da sua cama e vai
trabalhar. Volta ao meio dia para almoçar, logo, se recolhe no seu humilde
quarto. À tarde recebe as encomendas do mercado, tudo tranquilamente. Por volta
das 18 horas, trajando um vestido e um par de chinelos, sai de casa e...
Na
manhã de 24 de julho de 2014, Ana Luiza Brudna sai do Lar Bom Abrigo,
acompanhada pela diretora administrativa Marli Gaspar em direção ao Caps
Infantil, localizado no bairro São Geraldo. Chegando lá. Marli a deixa na
porta. Ana nem espera para ser atendida, volta-se a porta de saída, abre a
porta e...
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| Ilse Bonemann - Foto: Divulgação |
Se
você pensou que ocorreu erro de digitação, está totalmente enganado. Essas
reticências não estão perdidas aqui neste texto. Esses dois relatos acima são de
familiares de pessoas desaparecidas, que até hoje tentam superar a dor de ter
algum ente querido desaparecido.
No
primeiro relato implicitamente está o grande aperto no coração da filha de
Ilse, Andreia Carlise Carvalho, que apenas sabe esses dados sobre o último dia
que a sua mãe foi vista. “No dia do desaparecimento eu tinha ligado para ela,
pois ela queria que o meu gurizinho posasse na casa dela. Apesar dela ter
problemas de depressão, o fato dela se entreter com os netos era uma boa
ideia”, relata Andreia.
Começou
a entardecer e Andreia foi até a casa de sua mãe para deixar o seu filho, mas
chegando ao local, a mesma não se encontrava. Sua irmã que morava na mesma
casa, disse que provavelmente Ilse estaria em alguma das vizinhas. Até aquele
momento, Andreia não se preocupou, até porque sua mãe tinha o costume de
visitar os vizinhos.
“Voltei
para a minha casa. E lá pelas 11 horas da noite a minha irmã me liga e diz
“Olha, a mãe não voltou para casa”, imediatamente se deslocamos para então
procurá-la. E soubemos que a mãe não tinha visitado nenhuma das vizinhas
naquele dia. Apenas uma que dizia ter visto ela dobrando a Escola São Geraldo”.
No
domingo, as filhas de Isle foram até o Departamento de Polícia para registrar
oficialmente o seu desaparecimento. Comunicaram também nas rádios da cidade e
da região, sempre na esperança que alguém ligasse e dissesse a localização de
sua mãe. Andreia ressalta que ela saiu de casa sem levar o telefone, a chave da
casa, documentos e principalmente saiu sem dinheiro.
Andreia
não esconde a indignação com a polícia local, pois observa que boa parte das
divulgações e buscas foram realizadas pelos próprios familiares. “Fui bem
tratada pela delegada, mas sempre quando pergunto se estão fazendo alguma coisa
em relação ao caso, sempre dizem a mesma resposta, “nada”. A gente se revolta
no sentido que, se fosse alguma pessoa importante e com dinheiro as coisas
seriam totalmente diferentes. Trabalhamos, contribuímos, mas no momento que
mais precisamos não temos apoio necessário. Eles não se colocam no sofrimento
que a gente está passando”.
O
outro caso de desaparecimento em Ijuí é da menina Ana Luiza, de apenas 13 anos,
que também não está sendo realizado praticamente nada. Diferente de Ilse, Ana
Luiza acabou fugindo do Caps Infantil, e que até agora não há relatos sobre a
sua localização.
Sua
mãe, Marlene dos Santos, conta que sua filha estava enfrentando alguns
problemas e precisou ser internada no Hospital Bom Pastor, depois encaminhada
para a “Casa de Passagem – Criança e Adolescente”, aonde ia também ao Lar Bom
Abrigo e tinha acompanhamento de psicólogas no Caps Infantil.
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| Ana Luiza Brudna - Foto: Divulgação |
“Quando
o pessoal do Caps me informou do desaparecimento da Ana, entrei em desespero
novamente, porque não era a primeira vez que ela tinha fugido de alguma
instituição. Disseram-me que ela não tinha sido atendida e que simplesmente
saiu porta afora. Foram realizadas buscas pelo local, mas sem sucesso. Basta
pedir a Deus para que não tenha acontecido nada de mal a ela”, diz Marlene.
A
mãe de Ana Luiza lembra que a filha sempre lhe falava que não queria ir de
jeito nenhum para o Lar Bom Abrigo, e que queria realmente era voltar para
casa. “Disseram pra mim que ela tinha que ficar no Lar, que se ela ficasse aqui
em casa comigo, eu não teria como cuidar dela. Agora me diz uma coisa o Abrigo
cuidou?”.
A
coordenadora do Caps Infantil, Cátia Gentili, não estava no local quando
aconteceu a fuga de Ana Luiza, mas relata que a instituição é um serviço
aberto, e que em nenhum momento é permitido deixar as portas fechadas. E quando
acontecem esses casos de fugas é realizado buscas, depois comunicam a família e
o Conselho Tutelar.
Em
uma pesquisa realizada no Estado, levantou que mais de 5 mil pessoas estão
desaparecidas aqui no Rio Grande do Sul, ou seja, esses dois casos apontados,
são exemplos de ocorrências não esclarecidas e meramente arquivados no banco de
dados da polícia civil.
Agora
na sexta-feira, comemora-se o Dia Internacional dos Desaparecidos. Comemorar no
sentido de relembrar a memória dessas pessoas, pois diferentemente de outras
datas comemorativas, o dia festivo trata-se de consolidação dos esforços de
busca de algum ente querido e das reconstruções dos projetos de vida.
É
um cenário totalmente triste. Andreia e Marlene, uma procurando a mãe e a outra
a filha, que tentam conviver com o desaparecimento e sem contar com qualquer
apoio oficial para solucionar e superar o problema. “Eu penso que a morte tem
um, porém, você nasce, vive e morre, mas quando vem a palavra ‘desaparecido’,
isso não tem sentido para mim. É um sofrimento, onde fico me perguntando todos
os dias ‘onde está a minha mãe?’”, diz emocionada Andreia.




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