terça-feira, 20 de setembro de 2016

Desaparecidos: Esperança do reencontro continua viva

Foto: Divulgação

Essa reportagem talvez é uma das que mais me marcaram no meu início de carreira jornalística. Conversar sobre desaparecimento de familiares não foi uma tarefa fácil, pois a emoção toma conta, por observar a angústia estampada das fontes que entrevistei. Essa matéria eu produzi em 2014, e em uma pesquisa rápida eu observei que ambas continuam desaparecidas ou não existem relatos sobre os seus paradeiros.

Esperança do reencontro continua viva

Em um sábado de novembro de 2012, Ilse Bonemann levanta da sua cama e vai trabalhar. Volta ao meio dia para almoçar, logo, se recolhe no seu humilde quarto. À tarde recebe as encomendas do mercado, tudo tranquilamente. Por volta das 18 horas, trajando um vestido e um par de chinelos, sai de casa e...

Na manhã de 24 de julho de 2014, Ana Luiza Brudna sai do Lar Bom Abrigo, acompanhada pela diretora administrativa Marli Gaspar em direção ao Caps Infantil, localizado no bairro São Geraldo. Chegando lá. Marli a deixa na porta. Ana nem espera para ser atendida, volta-se a porta de saída, abre a porta e...

Ilse Bonemann - Foto: Divulgação

Se você pensou que ocorreu erro de digitação, está totalmente enganado. Essas reticências não estão perdidas aqui neste texto. Esses dois relatos acima são de familiares de pessoas desaparecidas, que até hoje tentam superar a dor de ter algum ente querido desaparecido. 

No primeiro relato implicitamente está o grande aperto no coração da filha de Ilse, Andreia Carlise Carvalho, que apenas sabe esses dados sobre o último dia que a sua mãe foi vista. “No dia do desaparecimento eu tinha ligado para ela, pois ela queria que o meu gurizinho posasse na casa dela. Apesar dela ter problemas de depressão, o fato dela se entreter com os netos era uma boa ideia”, relata Andreia.

Começou a entardecer e Andreia foi até a casa de sua mãe para deixar o seu filho, mas chegando ao local, a mesma não se encontrava. Sua irmã que morava na mesma casa, disse que provavelmente Ilse estaria em alguma das vizinhas. Até aquele momento, Andreia não se preocupou, até porque sua mãe tinha o costume de visitar os vizinhos.

“Voltei para a minha casa. E lá pelas 11 horas da noite a minha irmã me liga e diz “Olha, a mãe não voltou para casa”, imediatamente se deslocamos para então procurá-la. E soubemos que a mãe não tinha visitado nenhuma das vizinhas naquele dia. Apenas uma que dizia ter visto ela dobrando a Escola São Geraldo”.

No domingo, as filhas de Isle foram até o Departamento de Polícia para registrar oficialmente o seu desaparecimento. Comunicaram também nas rádios da cidade e da região, sempre na esperança que alguém ligasse e dissesse a localização de sua mãe. Andreia ressalta que ela saiu de casa sem levar o telefone, a chave da casa, documentos e principalmente saiu sem dinheiro.

Andreia não esconde a indignação com a polícia local, pois observa que boa parte das divulgações e buscas foram realizadas pelos próprios familiares. “Fui bem tratada pela delegada, mas sempre quando pergunto se estão fazendo alguma coisa em relação ao caso, sempre dizem a mesma resposta, “nada”. A gente se revolta no sentido que, se fosse alguma pessoa importante e com dinheiro as coisas seriam totalmente diferentes. Trabalhamos, contribuímos, mas no momento que mais precisamos não temos apoio necessário. Eles não se colocam no sofrimento que a gente está passando”.

O outro caso de desaparecimento em Ijuí é da menina Ana Luiza, de apenas 13 anos, que também não está sendo realizado praticamente nada. Diferente de Ilse, Ana Luiza acabou fugindo do Caps Infantil, e que até agora não há relatos sobre a sua localização.

Sua mãe, Marlene dos Santos, conta que sua filha estava enfrentando alguns problemas e precisou ser internada no Hospital Bom Pastor, depois encaminhada para a “Casa de Passagem – Criança e Adolescente”, aonde ia também ao Lar Bom Abrigo e tinha acompanhamento de psicólogas no Caps Infantil.

Ana Luiza Brudna - Foto: Divulgação

“Quando o pessoal do Caps me informou do desaparecimento da Ana, entrei em desespero novamente, porque não era a primeira vez que ela tinha fugido de alguma instituição. Disseram-me que ela não tinha sido atendida e que simplesmente saiu porta afora. Foram realizadas buscas pelo local, mas sem sucesso. Basta pedir a Deus para que não tenha acontecido nada de mal a ela”, diz Marlene.

A mãe de Ana Luiza lembra que a filha sempre lhe falava que não queria ir de jeito nenhum para o Lar Bom Abrigo, e que queria realmente era voltar para casa. “Disseram pra mim que ela tinha que ficar no Lar, que se ela ficasse aqui em casa comigo, eu não teria como cuidar dela. Agora me diz uma coisa o Abrigo cuidou?”.

A coordenadora do Caps Infantil, Cátia Gentili, não estava no local quando aconteceu a fuga de Ana Luiza, mas relata que a instituição é um serviço aberto, e que em nenhum momento é permitido deixar as portas fechadas. E quando acontecem esses casos de fugas é realizado buscas, depois comunicam a família e o Conselho Tutelar.

Em uma pesquisa realizada no Estado, levantou que mais de 5 mil pessoas estão desaparecidas aqui no Rio Grande do Sul, ou seja, esses dois casos apontados, são exemplos de ocorrências não esclarecidas e meramente arquivados no banco de dados da polícia civil.

Agora na sexta-feira, comemora-se o Dia Internacional dos Desaparecidos. Comemorar no sentido de relembrar a memória dessas pessoas, pois diferentemente de outras datas comemorativas, o dia festivo trata-se de consolidação dos esforços de busca de algum ente querido e das reconstruções dos projetos de vida.

É um cenário totalmente triste. Andreia e Marlene, uma procurando a mãe e a outra a filha, que tentam conviver com o desaparecimento e sem contar com qualquer apoio oficial para solucionar e superar o problema. “Eu penso que a morte tem um, porém, você nasce, vive e morre, mas quando vem a palavra ‘desaparecido’, isso não tem sentido para mim. É um sofrimento, onde fico me perguntando todos os dias ‘onde está a minha mãe?’”, diz emocionada Andreia.

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